Casal com dois filhos e renda de R$ 3.800 precisa juntar 100% do salário por 23 anos para comprar apartamento em SP, diz pesquisa

Estudo considera que família precisaria comprometer 283 meses de todo o salário para o pagamento do preço mediano de um imóvel adequado para seu tipo familiar; para o cálculo foi considerada a renda mediana na capital.

Prédios na região central da cidade de São Paulo, em foto de 2017 — Foto: Fábio Tito/G1

Prédios na região central da cidade de São Paulo, em foto de 2017 — Foto: Fábio Tito/G1

Uma pesquisa da plataforma de inteligência de mercado Urbit mostrou que a renda mediana de um casal com dois filhos na cidade de São Paulo precisaria ser 100% comprometida ao longo de 23 anos para a compra de um imóvel adequado na capital. Se a família utilizar apenas 30% da renda mensal, seriam necessários 78 anos para comprar a casa própria. As informações são do Portal g1

A pesquisa considerou que a renda mediana de um casal com dois filhos é de R$ 3.887 na capital, e que um imóvel adequado para este tipo de família deve ter, pelo menos, três quartos.

Em média, a renda de um casal com dois filhos é o bastante para uma propriedade de R$ 190 mil, embora o valor mediano de um imóvel na cidade seja R$ 600 mil. Os preços levam em conta anúncios de imobiliárias para apartamentos usados em todas as regiões da cidade.

Poucas áreas da capital apresentaram preços médios de imóveis abaixo de R$ 190 mil. Além disso, os imóveis desta faixa de preço na cidade geralmente têm apenas um dormitório, o que seria insuficiente para uma família de quatro pessoas, de acordo com a pesquisa.

O tempo necessário para o pagamento da casa própria varia de acordo com a região da cidade. Para comprar na Bela Vista, no Centro, a mesma família precisaria economizar 100% do salário por 35 anos – ou 119 anos usando 30% da renda familiar mensal, percentual máximo de comprometimento da renda aceito pelas instituições bancárias em financiamentos imobiliários.

Já na Casa Verde, na Zona Norte, o tempo necessário cai para 16 anos usando todo o salário ou 55 anos utilizando pouco menos de um terço do rendimento familiar.

Apesar da variação por região, nenhum bairro de São Paulo apresentou preços medianos acessíveis para uma família de renda mediana com filhos.

O estudo também calculou a acessibilidade à casa própria para quem mora sozinho, perfil que tem se tornado mais comum nos últimos anos. Neste caso, a renda mediana é de R$ 2.390 na capital, e o poder de compra é suficiente para um imóvel de até R$ 120 mil, segundo a consultoria.

Com essa renda mensal, o tempo necessário para um solteiro comprar um apartamento é de 169 meses (14 anos), caso o salário seja 100% utilizado para o pagamento do imóvel.

Com comprometimento de 30% da renda individual para o pagamento do imóvel, o prazo médio na capital sobe para 562 meses, ou pouco menos de 47 anos.

Segundo a consultoria, para solteiros, a região da República foi o único bairro classificado como acessível dentro do centro expandido, com disponibilidade de imóveis à venda por um valor igual ou inferior ao poder de compra deste grupo.

Dificuldade de acesso

Uma das principais conclusões do estudo foi a de que a facilidade de acesso a um imóvel próprio em São Paulo é baixa. Isto ocorre principalmente por conta do déficit habitacional e dos preços de mercado praticados na cidade.

“Há um descasamento muito grande entre a renda média da população e os preços de mercado”, disse a consultoria, na conclusão da pesquisa.
“Mesmo considerando cenários de financiamento favoráveis, com prazos de 30 anos e baixas taxas de juros, a lacuna ainda persiste. Junte isso à baixa capacidade de poupança da população e ao elevado endividamento, o cenário não é nada otimista”, disse o relatório.

Apesar dos preços altos, desde 2019 a cidade de São Paulo experimenta um boom imobiliário, com demolições em alta e aumento no número de lançamentos residenciais.

No entanto, o aumento na verticalização não atende, necessariamente, à população de renda média, que ainda está excluída do mercado imobiliário, segundo a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP) Raquel Rolnik.

Em entrevista à BBC, Rolnik disse que a verticalização de bairros que foram alvo do boom imobiliário nem sempre aumenta a densidade demográfica nessas regiões.

“Verticalização e adensamento não são necessariamente sinônimos. Podem ser, mas não são necessariamente”, pontuou.

“Quando se trata de uma verticalização para renda mais alta, o que você tem são muitos metros de área construída, apartamentos grandes, muita garagem e pouca gente”, destacou.