Guarda fica ‘ilhado’ e morre ao infartar e não conseguir ajuda durante temporal

O servidor público Marcelo da Silva Daniel, de 52 anos, morreu na casa em que vivia em São Vicente, SP, sem receber atendimento médico.

Guarda municipal morreu após ficar 'ilhado' e não receber atendimento em SP — Foto: Arquivo Pessoal

Guarda municipal morreu após ficar 'ilhado' e não receber atendimento em SP — Foto: Arquivo Pessoal

Um guarda municipal de São Vicente, no litoral de São Paulo, morreu ao ficar ilhado e precisar de atendimento médico após sofrer um infarto. De acordo com vizinhos e familiares, o atendimento a Marcelo da Silva Daniel, de 52 anos, foi feito cerca de duas horas após o socorro ser acionado. O corpo do guarda somente foi retirado de casa nove horas depois dos pedidos de ajuda.

O guarda começou a passar mal durante a manhã do último sábado (27), por volta das 9h, na casa onde vivia com a irmã, localizada na Rua Machado de Assis, no bairro Jóquei Clube. Ao perceber que Marcelo não respirava, a irmã foi até a casa ao lado da sua para pedir ajuda. Quem socorreu Marcelo foi o vizinho, o aposentado Domingos José Junior, de 52 anos.

Segundo Domingos, assim que soube do ocorrido, por volta das 10h, foi correndo até o quarto de Marcelo, onde o encontrou passando mal e rapidamente acionou o socorro, por meio do telefone de emergência 193. O aposentado explica, no entanto, que essa foi a primeira de diversas de vezes em que chamou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pelas duas horas seguintes.

“Quando liguei, mandaram aguardar porque tinham outros chamados na frente, que estava tudo alagado por aqui. Meia hora depois, liguei de novo e mandaram esperar. Também chamei os bombeiros, e fui ligando para o Samu várias vezes, mas ninguém veio. Já era 12h40 quando apareceu um bombeiro. Nessa hora, o Marcelo já tinha ido à óbito e o bombeiro disse que não poderia fazer nada”.

Domingos explica que, pouco tempo depois de chegar, o bombeiro deixou o imóvel para buscar um médico que pudesse atestar o óbito. “Ele voltou entre 13h30 e 14h, constatou a morte e falou para a família que eles tinham que ir ao Hospital Municipal preencher uma ficha para a retirada do corpo. A funerária só chegou na casa dele 19h, alegando que estava tudo alagado e não tinham como chegar. Para mim, foi um descaso total com a vida humana”.

Ambulâncias do SAMU não chegaram ao local onde guarda municipal passava mal após temporal em São Vicente — Foto: Divulgação/Prefeitura de São Vicente
Ambulâncias do SAMU não chegaram ao local onde guarda municipal passava mal após temporal em São Vicente — Foto: Divulgação/Prefeitura de São Vicente

“Me senti impotente nessa situação, sem respaldo nenhum. Não quero prejudicar ninguém, mas as pessoas tem que assumir suas responsabilidades. Ele era uma pessoa que trabalhou para o município e, quando precisou, não teve ajuda de ninguém”, desabafou o vizinho, que prestou ajuda aos familiares de Marcelo.

É o caso do irmão da vítima, o jornalista Luis da Silva Daniel, de 58 anos. Morador de Taubaté (SP), Luis conta que foi até São Vicente, na manhã de sábado, assim que soube da condição de Marcelo, no entanto, se surpreendeu ao descobrir a falta de atendimento ao irmão. “Fui chegar 14h e soube que muitas pessoas ligaram para a emergência, pedindo o socorro, mas ninguém chegava para ajudar ele”.

Luís aponta que, como justificativa para a demora, foi informado que as ambulâncias não conseguiram chegar na casa de Marcelo por conta dos alagamentos próximos à rua onde o guarda vivia. “O que eu não entendo é como eu, com um carro baixo, consegui chegar e eles, que estavam com ambulâncias, não poderiam ter ido buscar meu irmão”.

“É uma sensação de descaso, não valorizaram uma vida humana. Nem chegaram a tocar nele, simplesmente olharam. Ele era uma pessoa muito respeitada, todo mundo está revoltado com o que aconteceu. Uma ação não vai trazer meu irmão de volta, mas que o que aconteceu fique registrado para que não aconteça com outras famílias”, finaliza.

Prefeitura

Em nota, a Prefeitura de São Vicente afirma que informa que o Samu foi acionado para ocorrência às 9h59 de sábado. Os familiares foram orientados e a ambulância UTI deslocada para o atendimento. No entanto, devido aos alagamentos, ocasionados pela chuva da noite de sexta-feira (26), a viatura estacionou o mais próximo possível da residência de origem do chamado. O deslocamento levou nove minutos.

Devido as dificuldades de acesso ao local, a equipe do Samu acionou o Corpo de Bombeiros, que estava em apoio ao Samu em outra ocorrência também no Jóquei Clube. Foi necessário acionar o Corpo de Bombeiros de Santos, que com bote salva vidas levou a equipe médica até a casa do paciente, que já estava em óbito. A equipe médica constatou o óbito e efetuou as documentações necessárias às 13h30. Os familiares foram orientados a comparecerem à Delegacia de Polícia e ao serviço de óbito do Município para translado do paciente.

A prefeitura destaca que a retirada do corpo é realizado pelo serviço de óbito do Hospital São José, mediante apresentação de declaração de óbito do médico e boletim de ocorrência. Com relação à orientação aos familiares, a prefeitura afirma que o procedimento via telefone foi realizado corretamente e detectou a necessidade de atendimento especializado de urgência em UTI.

*G1